To investigate ApoB/ApoA1 ratio and its association with cardiovascular risk factors in children.
MethodsCross‐sectional study with 258 children aged 8 and 9 years old, enrolled in all urban schools in the city of Viçosa‐MG. Anthropometric and body composition assessment, as well as biochemical profile of the children was performed. Socioeconomic variables and sedentary lifestyle were evaluated through a semi‐structured questionnaire.
ResultsMany children had excess weight (35.2%), abdominal adiposity (10.5%), and body fat (15.6%), as well as increased ApoB/ApoA1 ratio (14.7%), total cholesterol (51.8%), and triglycerides (19.8%). Children with excess weight and total and central fat had a higher prevalence of having a higher ApoB/ApoA1 ratio, as well as those with atherogenic lipid profile (increased LDL‐c and triglycerides and low HDL‐c). A direct association was found between the number of cardiovascular risk factors and the ApoB/ApoA1 ratio (p=0.001), regardless of age and income.
ConclusionThe increased ApoB/ApoA1 ratio was associated with excess weight, body adiposity (total and central), and altered lipid profile in children. Children with a higher number of cardiovascular risk factors had higher ApoB/ApoA1 ratio, in both genders.
Investigar a razão ApoB/ApoA1 e sua relação com fatores de risco cardiovascular em crianças.
MétodosEstudo transversal com 258 crianças de 8 e 9 anos, matriculadas em todas as escolas urbanas de Viçosa‐MG. Foi feita avaliação antropométrica, da composição corporal e bioquímica das crianças. As variáveis socioeconômicas e o sedentarismo foram avaliados por questionário semiestruturado.
ResultadosMuitas crianças apresentaram excesso de peso (35,2%), de adiposidade abdominal (10,5%) e de gordura corporal (15,6%), bem como a razão ApoB/ApoA1 (14,7%), colesterol‐total (51,8%) e triglicerídeos (19,8%) aumentados. Crianças com excesso de peso e de gordura total e central apresentaram maiores prevalências de maior razão ApoB/ApoA1, bem como as com perfil lipídico aterogênico (LDL‐c e triglicerídeos aumentados e baixo HDL‐c). Foi encontrada associação direta entre o número de fatores de risco cardiovascular e a razão ApoB/ApoA1 (p=0,001), independente da idade e renda.
ConclusãoA razão ApoB/ApoA1 aumentada esteve associada ao excesso de peso, de adiposidade corporal (total e central) e ao perfil lipídico alterado nas crianças. As crianças com maior número de fatores de risco cardiovascular apresentaram maior razão ApoB/ApoA1, em ambos os sexos.
A exposição ao perfil lipídico aterogênico pode induzir alterações na artéria e contribuir para o desenvolvimento da aterosclerose, que pode iniciar na infância.1 Estudos demonstram que a concentração aumentada de LDL‐colesterol em crianças prediz o aumento da espessura da camada íntima da artéria em adultos.2 Diante desse fato é importante mensurar os lipídeos séricos na infância como estratégia da prevenção de doenças cardiovasculares e da aterosclerose.
A razão entre as partículas pró‐aterogênicas (que contêm ApoB) e as antiaterogênicas (que contêm ApoA1) pode estar associada a doenças cardiovasculares.3 A ApoA1 é a principal proteína da partícula da HDL‐c, é responsável por estimular o transporte reverso do colesterol, remover seu excedente dos tecidos e redirecioná‐lo para o fígado. Ademais, pode inibir a oxidação da LDL‐c, auxiliar na remoção de produtos tóxicos e apresentar propriedades anti‐inflamatórias.4 Por outro lado, a ApoB faz parte das frações lipídicas aterogênicas, inclusive LDL‐c, lipoproteína de densidade intermediária (IDL), lipoproteína de muita baixa densidade (VLDL) e lipoproteína (a).5
Nesse sentido, a razão ApoB/ApoA1 tem sido investigada como possível preditor cardiometabólico para aterosclerose em adultos.6 Já em crianças, estudos demonstraram que a razão ApoB/ApoA1 está associada com componentes da síndrome metabólica, tais como perímetro da cintura e pressão arterial aumentadas, HDL‐c baixo e triglicerídeos alto.7,8 Ademais, alterações no estilo de vida em crianças obesas, como o sedentarismo, parecem influenciar na maior razão ApoB/ApoA1.9 Entretanto, existe uma lacuna no conhecimento da relação entre a razão ApoB/ApoA1 e fatores de risco cardiovascular em crianças, essa investigação é pouco explorada no Brasil10 e em outros países com essa faixa etária.7,8
Uma vez que a razão ApoB/ApoA1 aumentada pode contribuir para a ocorrência de eventos ateroscleróticos na vida adulta, o objetivo deste estudo foi investigar a razão ApoB/ApoA1 e sua relação com fatores de risco cardiovascular em crianças matriculadas em escolas urbanas de Viçosa‐MG, Brasil.
MétodosPopulação do estudo e processo de amostragemEstudo transversal feito entre maio e dezembro de 2015, com amostra de 258 crianças de oito e nove anos, matriculadas em todas as escolas públicas (n = 17) e privadas (n = 7) da área urbana do município de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Este estudo faz parte de um projeto maior intitulado “Vitamina D na infância: ingestão, nível sérico e associação com fatores de risco cardiovasculares” proveniente da Pesquisa de Avaliação da Saúde do Escolar (Pase).
A amostra foi calculada no programa estatístico OpenEpi (Open Source Epidemiologic Statistics for Public Health, versão 3.01), levou‐se em consideração a prevalência de 50% para desfechos múltiplos, erro tolerável de 5%, acrescidos de 10% de perdas e 10% de fatores de confusão, totalizou um tamanho amostral de 366 crianças.
Para fins da avaliação da razão ApoB/ApoA1, usou‐se uma subamostra de 258 crianças, uma vez que o volume de sangue coletado não foi suficiente para a dosagem de ApoB e ApoA1 em todas as crianças do projeto original. É importante ressaltar que a amostra final não se diferenciou em relação ao sexo, idade e fatores de risco cardiovascular da amostra original.
Foi feito o processo de amostragem casual estratificada dos escolares, em que o número de crianças a ser amostrado em cada escola foi referente à ponderação por escola em função do seu porte. Posteriormente foi feito o sorteio com o uso da tabela de números aleatórios, até completar o número de alunos necessários por escola.
A partir do contato com os pais, as crianças foram convidadas a participar do estudo. Aquelas que faziam uso de medicamentos que interferissem no metabolismo de glicose e/ou lipídeos e que eram portadoras de necessidade especiais não foram incluídas no estudo.
Coleta de dadosA aferição de peso e estatura foi feita por meio de balança digital eletrônica (Tanita®, modelo BC 553, IL, EUA), com capacidade de 150 quilos e sensibilidade de 100 gramas. Os indivíduos foram pesados em posição ortostática, descalços e com roupas leves. A estatura foi aferida por meio do estadiômetro vertical portátil (Alturexata®, MG, Brasil) com extensão de dois metros, graduado em centímetros e subdividido em milímetros, respectivamente. A partir dos valores obtidos, o índice de massa corporal (IMC) foi calculado. O estado nutricional foi avaliado a partir do IMC/idade, foram consideradas eutróficas as crianças que apresentaram escore‐z ≥ ‐2 e < 1 e excesso de peso (sobrepeso + obesidade) aquelas que apresentaram escore‐z ≥ 1.11
O perímetro da cintura (PC) foi aferido no ponto médio entre a crista ilíaca e a última costela com auxílio de uma fita métrica flexível e inelástica, graduada em centímetros e subdividida em milímetros. Consideraram‐se adiposidade abdominal excessiva os valores acima do percentil 90 de acordo com idade e sexo.12 Foi calculada a relação cintura/estatura (RCE) a partir da divisão da medida da cintura (cm) pela altura (cm), adotaram‐se valores maiores ou iguais a 0,5 para classificar o excesso de adiposidade abdominal.13
A gordura corporal total e central (gordura androide‐GA e ginoide‐GG) foi avaliada pelo método de absorciometria de dupla energia de raios X na posição supina no Setor de Diagnóstico por Imagem da Divisão de Saúde da Universidade Federal de Viçosa. A GA compreende a região entre as costelas e a pelve, a demarcação superior foi feita a 20% da distância da crista ilíaca e do pescoço e a inferior acima da pelve. A medida da região ginoide incluiu o quadril, as coxas e as sobreposições das regiões das pernas e do tronco, a demarcação superior foi feita abaixo da crista ilíaca em uma distância de 1,5 vez da altura androide.14 O excesso de gordura corporal foi classificado com valores maiores ou iguais ao percentil 85 para idade e sexo, segundo McCarthy et al.15
O perímetro do pescoço (PP) foi avaliado com a criança de pé, ereta, no plano horizontal de Frankfurt, com o uso de uma fita métrica inextensível (TBW®, SP, Brasil), exatamente abaixo da proeminência laríngea no pescoço, perpendicularmente ao maior eixo do pescoço. Foi exercida pressão mínima, de forma que permita o contato completo da fita com a pele. Os valores aumentados foram classificados de acordo com os pontos de corte propostos por Nafieu et al.16
O perímetro da cintura (PC), a relação cintura estatura (RCE), o perímetro do pescoço (PP) e a relação gordura androide/ginoide foram considerados indicadores de adiposidade central, enquanto o IMC de adiposidade total.
A pressão arterial foi aferida com a criança sentada em três tempos com intervalo de cinco minutos, foi considerada a média para classificação de acordo com a VII Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. A hipertensão arterial foi classificada quando a pressão arterial sistólica (PAS) e/ou diastólica (PAD) foram superiores ao percentil 95, de acordo com idade, sexo, percentil de altura, em pelo menos três ocasiões.17 Foi usado equipamento de insuflação automática (Omron®, HEM 907, IL, EUA).
As amostras de sangue venoso foram coletadas entre 8h e 10h, após o jejum noturno, e centrifugadas a 1.000 x g por 10 minutos a 4°C. Determinamos o colesterol total (CT), HDL‐c, LDL‐c, triglicerídeo (TG) e proteína‐C reativa ultrassensível (PCR‐US) pelo método enzimático colorimétrico, com o kit comercial (Bioclin®, MG, Brasil) e dosados em equipamento analisador automático (BS‐200 Mindray®, China) no Laboratório de Análises Clínicas (LAC) do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa (UFV). O colesterol não HDL‐c foi estimado pela fórmula “colesterol não HDL‐c = CT‐HDL‐c”. A classificação do perfil lipídico foi feita segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia.18 A concentração sérica de leptina, ApoA1, ApoB e homocisteína foi analisada com kits comercias Elisa, nefolometria (Beckman Coulter, CA, EUA) e quimioluminescência (protocolos padronizados do Diagnóstico Brasil), respectivamente. As variações intraensaio foram 4% tanto para ApoA1 quanto para ApoB. Por não existirem pontos de corte para classificação da proteína‐C reativa ultrassensível, leptina, homocisteína, ApoA1 e ApoB na faixa etária estudada, valores maiores ou iguais ao percentil 85 foram considerados em risco.
Um questionário semiestruturado foi aplicado pessoalmente por entrevistadores treinados com os pais ou responsáveis para avaliação das variáveis sociodemográficas, tais como sexo, renda familiar per capita e tempo total de atividade física (TAF). As crianças foram classificadas como ativas quando fizeram, semanalmente, 300 minutos ou mais de atividade física moderada ou vigorosa e inativas quando fizeram menos de 300 minutos, conforme classificação da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar.19 É importante ressaltar que nenhuma menina havia apresentado a menarca neste estudo.
Análises estatísticasA normalidade dos dados foi verificada pelo teste de Kolmogorov‐Smirnov. O teste qui‐quadrado de Pearson e o exato de Fisher foram usados para comparar as prevalências dos fatores de risco cardiovascular entre os sexos e os valores de ApoB/ApoA1.
Foi feita a regressão de Poisson, com variância substancial bruta e ajustada, para analisar as associações entre a razão ApoB/ApoA1 e idade, tempo de atividade física, variáveis antropométricas, de composição corporal, clínicas e bioquímicas. As variáveis com nível de significância ≤ 0,20 foram incluídas no modelo de regressão. Pela análise de regressão linear, a razão ApoB/ApoA1 também foi avaliada segundo o número de fatores de risco cardiovascular (TAF, RCE, CT, HDL‐c, LDL‐c, TG, colesterol não HDL, GA/GG, excesso de peso). As análises estatísticas foram feitas nos softwares Statistical Package for the Social Sciences (SPSS para Windows, versão 16.0, Chicago, EUA) e Stata (Stata Statistical Software: Release 10. College Station, TX, EUA). Considerou‐se significância estatística o valor de p < 0,05.
Aspectos éticosEste estudo foi feito de acordo com as orientações definidas na Declaração de Helsinki e todos os procedimentos que envolvem seres humanos foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa (UFV) (parecer n° 663.171/2014). O termo de consentimento livre e esclarecido foi obtido pelos pais ou responsáveis legais, após serem informados sobre os objetivos do estudo.
ResultadosForam avaliadas 258 crianças, 56% do sexo feminino. Muitas crianças apresentaram excesso de peso (35,2%), de adiposidade abdominal (10,5%) e de gordura corporal (15,6%), bem como a razão ApoB/ApoA1 (14,7%), colesterol total (51,8%) e triglicerídeos (19,8%) aumentados. Além disso, 8,9, 17,9 e 24% das crianças apresentaram valores séricos de PCR ultrassensíveis, leptina e homocisteína aumentados, respectivamente. As prevalências da concentração sérica de ApoA1 e HDL‐c reduzidas foram maiores nos meninos do que nas meninas. Já as meninas apresentaram maiores prevalências de concentração sérica de triglicerídeos e leptina aumentadas (tabela 1).
Distribuição da idade, do tempo de atividade física, das variáveis antropométricas, de composição corporal e bioquímicas das crianças, segundo o sexo. Viçosa, MG, Brasil, 2015
Variáveis | Meninos n (%) | Meninas n (%) | p |
---|---|---|---|
Idade | |||
8 anos | 60 (53,6) | 65 (44,5) | 0,149 |
9 anos | 52 (46,4) | 81 (55,5) | |
TAF | |||
Ativo (> 300 min/sem) | 78 (69,6) | 117 (80,1) | 0,052 |
Inativo (≤ 300 min/sem) | 34 (30,4) | 29 (19,9) | |
Relação cintura/estatura | |||
≤ 0,5 | 18 (16,1) | 30 (20,5) | 0,360 |
> 0,5 | 94 (83,9) | 116 (79,5) | |
Excesso de peso | |||
Não (Escore‐z ≥ ‐2 e < 1) | 74 (66,1) | 93 (63,7) | 0,693 |
Sim (Escore‐z ≥ 1) | 38 (33,9) | 53 (36,3) | |
Perímetro do pescoço (cm) | |||
Normal | 97 (86,6) | 121 (82,9) | 0,412 |
Aumentado | 15 (13,4) | 25 (17,1) | |
Perímetro da cintura (cm) | |||
< Percentil 90 | 100 (89,3) | 131 (89,7) | 0,909 |
≥ Percentil 90 | 12 (10,7) | 15 (10,3) | |
Gordura corporal (%) | |||
< Percentil 85 | 96 (85,7) | 121 (82,9) | 0,537 |
≥ Percentil 85 | 16 (14,3) | 25 (17,1) | |
GG/GA (%) | |||
< Percentil 85 | 95 (84,8) | 123 (84,2) | 0,899 |
≥ Percentil 85 | 17 (15,2) | 23 (15,8) | |
PAS (mmHg) | |||
Normal | 105 (93,8) | 136 (93,8) | 0,989 |
Aumentada | 7 (6,2) | 9 (6,2) | |
PAD (mmHg)a | |||
Normal | 108 (96,4) | 143 (98,6) | 0,408 |
Aumentada | 4 (3,6) | 2 (1,4) | |
ApoB (mg/dL) | |||
< Percentil 85 | 99 (88,4) | 122 (83,6) | 0,272 |
≥ Percentil 85 | 13 (11,6) | 24 (16,4) | |
ApoA1 (mg/dL) | |||
< Percentil 85 | 24 (21,4) | 14 (9,6) | 0,008 |
≥ Percentil 85 | 88 (78,6) | 132 (90,4) | |
ApoB/ApoA1 | |||
< Percentil 85 | 99 (88,4) | 121 (82,9) | 0,215 |
≥ Percentil 85 | 13 (11,6) | 25 (17,1) | |
Colesterol total (mg/dL) | |||
< 150 | 54 (48,2) | 70 (48,3) | 0,992 |
≥ 150 | 58 (51,8) | 75 (51,7) | |
Triglicerídeos (mg/dL) | |||
< 100 | 98 (87,5) | 108 (74,5) | 0,009 |
≥ 100 | 14 (12,5) | 37 (25,5) | |
LDL‐c (mg/dL) | |||
< 100 | 80 (72,1) | 104 (71,2) | 0,883 |
≥ 100 | 31 (27,9) | 42 (28,8) | |
HDL‐c (mg/dL) | |||
< 45 | 87 (77,7) | 94 (64,8) | 0,025 |
≥ 45 | 25 (22,3) | 51 (32,5) | |
Não HDL‐c (mg/dL)a | |||
< 130 | 110 (98,2) | 143 (97,9) | 1,00 |
≥ 130 | 2 (1,8) | 3 (2,1) | |
PCR ultrassensível (mg/L) | |||
< Percentil 85 | 100 (89,3) | 135 (92,5) | 0,374 |
≥ Percentil 85 | 12 (10,7) | 11 (7,5) | |
Leptina (ng/mL) | |||
< Percentil 85 | 99 (89,2) | 107 (76,4) | 0,009 |
≥ Percentil 85 | 12 (10,8) | 33 (23,6) | |
Homocisteína (ng/mL) | |||
< Percentil 85 | 83 (74,1) | 113 (77,4) | 0,540 |
≥ Percentil 85 | 29 (25,9) | 33 (22,6) |
ApoA1, apoplipoproteína A1; ApoB, apolipoproteína B; GA, gordura corporal androide; GG, gordura corporal ginoide; HDL‐c, lipoproteína de alta densidade; IMC, índice de massa corporal; LDL‐c, lipoproteína de baixa densidade; PAD, pressão arterial diastólica; PAS, pressão arterial sistólica; PCR, proteína C‐reativa; TAF, tempo total de atividade física.
Teste de χ2 de Pearson.
Valores em negrito representam p <0,05.
As crianças com maior razão ApoB/ApoA1 eram mais inativas, apresentaram RCE aumentada, excesso de peso e perfil lipídico alterado (tabela 2).
Distribuição do tempo de atividade física, das variáveis antropométricas, de composição corporal e bioquímicas das crianças, segundo a razão ApoB/ApoA1. Viçosa, MG, Brasil, 2015
Variáveis | ApoB/ApoA1 < Percentil 85 n (%) | ApoB/ApoA1 ≥ Percentil 85 n (%) | P |
---|---|---|---|
TAF | |||
Ativo (> 300 min/sem) | 172 (78,2) | 23 (60,5) | 0,019 |
Inativo (≤ 300 min/sem) | 48 (21,8) | 15 (39,5) | |
Relação cintura/estatura | |||
≤ 0,5 | 185 (84,1) | 25 (65,8) | 0,007 |
> 0,5 | 35 (15,9) | 13 (34,2) | |
Excesso de peso | |||
Não (Escore‐z ≥ ‐2 e < 1) | 150 (68,2) | 17 (44,7) | 0,005 |
Sim (Escore‐z ≥ 1) | 70 (31,8) | 21 (55,3) | |
Perímetro do pescoço (cm) | |||
Normal | 188 (85,5) | 30 (78,9) | 0,306 |
Aumentado | 32 (14,5) | 8 (21,1) | |
Perímetro da cintura (cm)a | |||
≤ Percentil 90 | 22 (10,0) | 5 (13,2) | 0,567 |
> Percentil 90 | 198 (90,0) | 33 (86,8) | |
Gordura corporal (%) | |||
< Percentil 85 | 188 (85,5) | 29 (76,3) | 0,155 |
≥ Percentil 85 | 32 (14,5) | 9 (23,7) | |
GG/GA (%) | |||
< Percentil 85 | 190 (86,4) | 28 (73,7) | 0,046 |
≥ Percentil 85 | 30 (13,6) | 10 (26,3) | |
Colesterol total (mg/dL) | |||
< 150 | 116 (53,0) | 8 (21,1) | < 0,001 |
≥ 150 | 103 (47,0) | 30 (78,9) | |
Triglicerídeos (mg/dL) | |||
< 100 | 186 (84,9) | 20 (52,6) | < 0,001 |
≥ 100 | 33 (15,1) | 18 (47,4) | |
LDL‐c (mg/dL) | |||
< 100 | 171 (78,1) | 13 (34,2) | < 0,001 |
≥ 100 | 48 (21,9) | 25 (65,8) | |
HDL‐c (mg/dL) | |||
< 45 | 165 (75,3) | 16 (42,1) | < 0,001 |
≥ 45 | 54 (24,7) | 22 (57,9) | |
Não HDL‐c (mg/dL) | |||
< 130 | 196 (89,1) | 21 (55,3) | < 0,001 |
≥ 130 | 24 (10,9) | 17 (44,7) | |
Leptina (ng/mL) | |||
< Percentil 85 | 178 (83,2) | 28 (75,7) | 0,272 |
≥ Percentil 85 | 36 (16,8) | 9 (24,3) | |
PCR (mg/L) | |||
< Percentil 85 | 187 (85) | 30 (78,9) | 0,346 |
≥ Percentil 85 | 33 (15) | 8 (21,1) | |
Homocisteína (ng/mL) | |||
< Percentil 85 | 168 (76,4) | 28 (73,7) | 0,686 |
≥ Percentil 85 | 52 (23,6) | 10 (26,3) |
ApoA1, apoplipoproteína A1; ApoB, apolipoproteína B; GA, gordura corporal androide; GG, gordura corporal ginoide; HDL‐c, lipoproteína de alta densidade; IMC, índice de massa corporal; LDL‐c, lipoproteína de baixa densidade; PAD, pressão arterial diastólica; PAS, pressão arterial sistólica; PCR, proteína C‐reativa; TAF, tempo total de atividade física.
Teste de χ2 de Pearson.
Valores em negrito representam p <0,05.
Em modelos de regressão, as crianças com indicadores de adiposidade total e central (RCE, perímetro da cintura, gordura corporal e GA/GG) aumentados apresentaram maiores prevalências da maior razão ApoB/ApoA1 (> percentil 85), independentemente do sexo, idade e renda. De modo interessante, as crianças com perfil lipídico aterogênico (colesterol‐total, LDL‐c, não HDL‐c e triglicerídeos aumentados e baixo HDL‐c) apresentaram também maiores prevalências da maior razão ApoB/ApoA1, independentemente do sexo, idade, renda e gordura corporal (tabela 3).
Associação entre a razão ApoB/ApoA1 aumentada (variável dependente) e variáveis antropométricas, de composição corporal e bioquímicas em crianças. Viçosa, MG, Brasil, 2015
Variáveis | Apo B/Apo A1 (> percentil 85) | ||
---|---|---|---|
RP | IC 95% | p valor | |
TAFa | |||
Ativo (≥ 300 minutos/sem) | 1 | ‐ | |
Inativo (< 300 minutos/sem) | 1,31 | 0,63‐2,75 | 0,432 |
Estado nutricionalb | |||
Eutrofia | 1 | ‐ | |
Excesso de peso | 2,14 | 1,20‐3,80 | 0,001 |
Relação cintura/estaturab | |||
< 0,5 | 1 | ‐ | |
≥ 0,5 | 2,21 | 1,24‐3,94 | 0,004 |
Perímetro da cinturab | |||
< Percentil 90 | 1 | ‐ | |
≥ Percentil 90 | 1,82 | 1,02‐3,25 | 0,003 |
Gordura corporalb | |||
Meninos < 20% meninas < 25% | 1 | ‐ | |
Meninos ≥ 20% meninas ≥ 25% | 1,92 | 1,02‐3,61 | 0,009 |
GA/GGb | |||
< percentil 85 | 1 | ‐ | |
≥ percentil 85 | 1,80 | 0,93‐3,47 | 0,003 |
Colesterol totalc | |||
<150 mg/dL | 1 | ‐ | |
≥ 150 mg/dL | 3,39 | 1,61‐7,12 | < 0,001 |
HDL‐cc | |||
> 45 mg/dL | 1 | ‐ | |
< 45 mg/dL | 2,98 | 1,62‐5,49 | < 0,001 |
LDL‐cc | 1 | ‐ | |
< 100 mg/dL | |||
≥ 100 mg/dL | 4,66 | 2,55‐8,54 | < 0,001 |
Não HDL‐cc | |||
< 130 mg/dL | 1 | ‐ | |
≥ 130 mg/dL | 3,49 | 1,39‐8,77 | < 0,001 |
Triglicerídeos | |||
< 100 mg/dL | 1 | ‐ | |
≥ 100 mg/dL | 3,59 | 2,06‐6,25 | < 0,001 |
GA, gordura androide; GG, gordura ginoide; HDL‐c, lipoproteína de alta densidade; IMC, índice de massa corporal; LDL‐c, lipoproteína de baixa densidade; TAF, tempo de atividade física.
Regressão de Poisson ajustada:
As crianças com maior número de fatores de risco cardiovascular apresentaram maior razão ApoB/ApoA1, independentemente da idade e da renda, tanto nas meninas quanto nos meninos (fig. 1).
DiscussãoNo presente trabalho, a maior razão ApoB/ApoA1 esteve associada ao excesso de peso e de adiposidade corporal (total e central), além do perfil lipídico alterado nas crianças. Houve associação direta entre o número de fatores de risco cardiovascular e a razão ApoB/ApoA1, independentemente da idade e da renda.
Em crianças e adolescentes do Canadá também foi encontrada associação entre a razão ApoB/ApoA1 aumentada e o excesso de peso.7 Em estudo nos Estados Unidos, crianças e adolescentes eutróficos com obesidade abdominal (RCE ≥ 0,5cm) apresentaram maior número de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão arterial, triglicerídeos e LDL‐c aumentados, e resistência à insulina, quando comparado com aqueles sem obesidade abdominal.20 Em crianças e adolescentes brasileiros, a razão ApoB/ApoA1 esteve associada com mais de um fator de risco cardiovascular (IMC, PC, RCE, HDL‐c e triglicerídeos), o que corroborou nossos achados.10
O excesso de adiposidade central tem sido considerado o principal componente da síndrome metabólica e está fortemente associado com as dislipidemias e o aumento do número de fatores de risco cardiovascular, tanto em adultos21 quanto em crianças.22 O excesso de adiposidade central pode levar ao aumento da razão ApoB/ApoA1 por diferentes mecanismos. 1) Diminuição do receptor hepático da LDL e/ou diminuir a atividade da lipase lipoproteica (LPL), ambos importantes para a remoção de quilomícrons remanescentes da circulação que contêm moléculas de ApoB;23,24 2) Aumento da secreção de adipocinas pelo tecido adiposo de indivíduos obesos; 3) Redução da concentração sérica de HDL‐c, principal característica da dislipidemia associada à obesidade central.25 Em indivíduos obesos, a concentração de HDL‐c baixa é consequência do aumento do catabolismo da HDL‐c, favorece assim a diminuição da concentração da ApoA1.26 Ademais, o acúmulo da gordura corporal é um dos principais fatores que podem modificar a expressão da LDL de pequena densidade, pois tanto em adultos como em crianças a obesidade abdominal está relacionada a menor densidade e ao menor tamanho da partícula da LDL‐c.27
Vale ressaltar que, neste estudo, as crianças com três ou mais fatores de risco cardiovascular apresentaram maiores valores da razão ApoB/ApoA1, em ambos os sexos. Essa associação direta sugere a possível influência das partículas pró‐aterogênicas (que contêm ApoB) e as antiaterogênicas (que contêm ApoA1) nas doenças cardiovasculares, à medida que há aumento do número de fatores de risco. Até o momento, não foram encontrados trabalhos similares, de modo que nossos resultados indicam a precocidade dessa relação já na infância.
No presente estudo, não foram encontradas associações das concentrações séricas de leptina, PCR e homocisteína com a razão ApoB/ApoA1. Uma possível hipótese é que esses marcadores participem do risco cardiometabólico por uma via diferente da razão ApoB/ApoA1, eles são reconhecidos como importantes indicadores de inflamação subclínica, enquanto as apolipoproteínas estão envolvidas no metabolismo lipídico.28 Contudo, até o momento, não foram encontrados outros estudos que avaliaram a relação entre a maior razão ApoB/ApoA1 e esses marcadores cardiometabólicos, bem como os mecanismos envolvidos.
Destaca‐se como limitação deste estudo o fato de apresentar delineamento transversal, o que não permite estabelecer relação causa‐efeito. É importante ressaltar que poucos estudos brasileiros avaliaram marcadores cardiovasculares não clássicos, como a razão ApoB/ApoA1 em crianças pré‐púberes saudáveis. Uma vez que essas alterações podem contribuir para o surgimento da doença aterosclerótica, sua identificação precoce é fundamental para o planejamento e a execução de políticas de saúde pública, com ações dirigidas de educação alimentar e nutricional e o estímulo à prática da atividade física. Essa ação pode contribuir para redução da mortalidade futura por doenças cardiovasculares e outras doenças relacionadas à obesidade.
Conclui‐se que a maior razão ApoB/ApoA1 esteve associada ao excesso de peso, de adiposidade corporal (total e central) e ao perfil lipídico alterado nas crianças. As crianças com maior número de fatores de risco cardiovascular apresentaram maior razão ApoB/ApoA1, independentemente da idade e da renda.
FinanciamentoConselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq‐ processo n° 478910/2013‐4) e Bioclin.
Conflitos de interesseOs autores declaram não haver conflitos de interesse.
Às crianças e a seus pais pela participação no estudo, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq‐ processo n° 478910/2013‐4) pelo apoio financeiro, à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) pela concessão de bolsa e à Bioclin pela doação de kits bioquímicos.
Como citar este artigo: Castro AP, Hermsdorff HH, Milagres LC, Albuquerque FM, Filgueiras MS, Rocha NP, et al. Increased ApoB/ApoA1 ratio is associated with excess weight, body adiposity, and altered lipid profile in children. J Pediatr (Rio J). 2019;95:240–8.