Compartilhar
Informação da revista
Compartilhar
Compartilhar
Baixar PDF
Mais opções do artigo
Carta ao Editor
DOI: 10.1016/j.jpedp.2019.06.002
Open Access
Disponível online o 30 Junho 2019
Routine pacifier use in infants: pros and cons
Uso rotineiro de chupeta por bebês: prós e contras
Visitas
102
Gabriela Buccinia,
Autor para correspondência
gabriela.buccini@yale.edu

Autor para correspondência.
, Rafael Pérez‐Escamillaa, Sonia I. Venanciob
a Yale School of Public Health, New Haven, Estados Unidos
b Instituto de Saúde, São Paulo, SP, Brasil
Conteúdo relacionado
J Pediatr (Rio J). 2019;95:121-310.1016/j.jpedp.2018.05.009
Arthur I. Eidelman
Este item recebeu
102
Visitas

Under a Creative Commons license
Informação do artigo
Texto Completo
Bibliografia
Baixar PDF
Estatísticas
Texto Completo
Caro Editor,

Lemos com grande interesse o editorial “Uso rotineiro de chupeta por bebês: prós e contras”,1 que trouxe informações relevantes sobre a temática. Entretanto, a enfática recomendação final sobre o uso rotineiro de chupetas em crianças amamentadas, em nossa visão, merece ponderação.

São fortes evidências do impacto positivo da amamentação na saúde das crianças, das mulheres que amamentam e para a economia dos países.2 Dadas as baixas taxas de amamentação mundialmente, em especial de amamentação exclusiva (AME) entre menores de seis meses, pesquisadores têm se dedicado a identificar determinantes passíveis de modificação.3 Entre os quais, está o uso de chupetas – um hábito cultural, passível de modificação. Revisão sistemática sobre os determinantes da AME no Brasil identificou o uso de chupeta como o fator mais fortemente associado à interrupção da AME (i.e., 15 dos 16 estudos que incluíram a chupeta em seus modelos analíticos encontraram associação).4 Entretanto, reconhecemos que existem lacunas na compreensão dos mecanismos causais ou não envolvidos nessa associação.

Em busca do melhor nível de evidências, revisões sistemáticas5,6 e metanálises7–9 que investigaram a relação entre uso de chupeta e amamentação encontraram resultados divergentes. Conforme descrito no editorial, as publicações que incluíram somente ensaios clínicos randomizados (ECR) não observaram diferenças na duração da amamentação frente a diferentes intervenções que usaram a chupeta5,8 (ação educativa para não uso de chupeta10vs. indicação de uso11vs. não uso no hospital, inclusive a população de prematuros,12vs. atraso na introdução até quatro semanas de vida).13 Vale ressaltar que fatores que permeiam a relação do uso de chupeta e amamentação7 não foram controlados por esses ECRs. Por exemplo, não houve sistematização em relação à intensidade de uso da chupeta, isto é, uso “regular” e uso “parcial”. Outro exemplo é que na revisão publicada na The Cochrane Library8 a população dos ECRs incluídos foi composta de mães altamente motivadas a amamentar (ou seja, que estariam comprometidas a continuar a amamentar mesmo frente a múltiplos desafios na amamentação) e um dos ECR apresenta um possível conflito de interesses.14 Mediante essas limitações e vieses, consideramos prematuro emitir uma recomendação de que o uso de chupeta não interfere na duração da amamentação.

Na tentativa de avançar nos conhecimentos sobre a temática, conduzimos uma metanálise que incluiu ECRs e estudos observacionais, com critérios de elegibilidade compreensivos, sem restrição de ano e língua de publicação.7 Considerando a limitação dos estudos transversais para o estabelecimento de causalidade, privilegiamos a análise de estudos observacionais prospectivos que consideraram o uso de chupeta um fator prognóstico da amamentação. Com base em 46 publicações incluídas, dessas 14 estudos observacionais prospectivos, concluímos que a chupeta está associada à menor duração da AME.7 Evidências como dessa revisão têm suscitado a preocupação de pesquisadores no campo da amamentação, em busca de estratégias inovadoras para reduzir o uso de chupeta, a exemplo do estudo publicado por Giugliani et al.15 Aprendemos com o referido estudo que sessões de aconselhamento para promoção da amamentação com o envolvimento de parentes (nesse caso, as avós) podem ter um impacto positivo na mudança de comportamento das mães referentes ao uso de chupetas. Conforme demonstrado pelos mesmos autores em publicações anteriores,16–18 essa mesma intervenção também impactou no aumento das frequências de amamentação. Nesse sentido, análise de dados populacionais do Brasil, além de confirmar a chupeta como o fator mais fortemente associado à interrupção da AME entre 1999 e 2008,19 demonstrou que a redução no seu uso (em 17% no período) contribuiu significativamente para o aumento das taxas de AME (aumento de 15%) nesse período de nove anos.20 Mediante o cenário de estagnação nos indicadores de amamentação e AME no Brasil,21 intervenções simples e eficazes que atuem sobre fatores de risco modificáveis, como a redução no uso de chupeta, podem ser chave para promoção da amamentação.

Considerando as evidências disponíveis, fica claro que a relação entre chupeta e interrupção do AME é complexa e pode ter componentes de causa, consequência, coincidência e estar relacionada ao temperamento do bebê e ao perfil da mãe e da família.22 Consequentemente, as recomendações para uso de chupeta variam mundialmente.23–26 De um lado, aqueles que defendem o uso de chupeta o fazem para a prevenção da síndrome da morte súbita do lactente.23,27 Entretanto, recente revisão sistemática concluiu que não existem evidências de ECRs para apoiar ou rejeitar o uso de chupetas e, portanto, não seria possível fazer recomendação específica.28 Já a posição ao dormir27 e a própria amamentação, em especial a exclusiva,29 são apontadas como fatores protetores da morte súbita do lactente. Por outro lado, aqueles que defendem a amamentação têm usado uma abordagem de aconselhamento sobre o uso de chupetas conforme sugerido pela Organização Mundial da Saúde na revisão dos 10 Passos da Iniciativa Hospital Amigo da Criança (IHAC).26 Essa recomendação foi recentemente endossada pela Sociedade Brasileira de Pediatria com a publicação de um dossiê sobre as evidências de prós e contras do uso de chupetas em crianças amamentadas e de como atuar com as famílias, a fim de guiar recomendações de pediatras e profissionais de saúde, bem como a escolha ponderada de pais, para evitar uma atitude indiferente frente ao uso indiscriminado desse artefato.30

Por fim, vale lembrar a influência das indústrias, que lucram milhões com a venda de chupetas,31 não medem esforços para promover o seu produto e reforçar o imaginário cultural.32 Mediante os impasses em relação aos prós (por exemplo, redução na morte súbita infantil, estimulação da sucção não nutritiva, manejo da dor no recém‐nascido e modulação do comportamento agitado do bebê) e contras (por exemplo, alteração nas funções orais, sucção, amamentação, mastigação e deglutição, alterações na dentição, aumento na incidência de otite média, aumento da morte súbita como resultado da menor AME etc.) possivelmente relacionados a uso de chupeta, consideramos importante que os profissionais informem os pais sobre as evidências disponíveis, para que esses possam tomar uma decisão individualizada e consciente, como proposto pelas novas recomendações da IHAC.26

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
[1]
A.I. Eidelman.
Routine pacifier use in infants: pros and cons.
J Pediatr (Rio J), 95 (2019), pp. 121-123
[2]
C.G. Victora, R. Bahl, A.J. Barros, G.V. França, S. Horton, J. Krasevec, et al.
Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect.
[3]
N.C. Rollins, N. Bhandari, N. Hajeebhoy, S. Horton, C.K. Lutter, J.C. Martines, et al.
Why invest, and what it will take to improve breastfeeding practices?.
[4]
C.S. Boccolini, M.L. de Carvalho, M.I. de Oliveira.
Fatores associados ao aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida no Brasil: revisão sistemática.
Rev Saude Publica, 49 (2015), pp. 91
[5]
N.R. O’Connor, K.O. Tanabe, M.S. Siadaty, F.R. Hauck.
Pacifiers and breastfeeding: a systematic review.
Arch Pediatr Adolesc Med, 163 (2009), pp. 378-382
[6]
S. Neto, A.E. Oliveira, E. Zandonade, M.d.C. Molina.
Pacifier use as a risk factor for reduction in breastfeeding duration: a systematic review.
Rev Bras Saúde Mater Infan, 8 (2008), pp. 377-389
[7]
G.D.S. Buccini, R. Pérez-Escamilla, L.M. Paulino, C.L. Araujo, S.I. Venancio.
Pacifier use and interruption of exclusive breastfeeding: systematic review and meta‐analysis.
Matern Child Nutr, 13 (2017), pp. e12384
[8]
S.H. Jaafar, J.J. Ho, S. Jahanfar, M. Angolkar.
Effect of restricted pacifier use in breastfeeding term infants for increasing duration of breastfeeding.
Cochrane Database Syst Rev, (2016), pp. CD007202
[9]
E. Karabulut, S.S. Yalcin, P. Özdemir-Geyik, E. Karaagaoglu.
Effect of pacifier use on exclusive and any breastfeeding: a meta‐analysis.
Turk J Pediatr, 51 (2009), pp. 35
[10]
M.S. Kramer, R.G. Barr, S. Dagenais, H. Yang, P. Jones, L. Ciofani, et al.
Pacifier use early weaning cry/fuss behavior: a randomized controlled trial.
JAMA, 286 (2001), pp. 322-326
[11]
A.G. Jenik, N.E. Vain, A.N. Gorestein, N.E. Jacobi, Pacifier and Breastfeeding Trial Group.
Does the recommendation to use a pacifier influence the prevalence of breastfeeding?.
J Pediatr, 155 (2009),
[12]
C.T. Collins, P. Ryan, C.A. Crowther, A.J. McPhee, S. Paterson, J.E. Hiller.
Effect of bottles cups dummies on breast feeding in preterm infants: a randomised controlled trial.
[13]
C.R. Howard, F.M. Howard, B. Lanphear, S. Eberly, E.A. deBlieck, D. Oakes, et al.
Randomized clinical trial of pacifier use and bottle‐feeding or cupfeeding and their effect on breastfeeding.
Pediatrics, 111 (2003), pp. 511-518
[14]
S.C.A. Di Mario, V. Basevi, N. Magrini.
Feedback 1. In: Effect of restricted pacifier use in breastfeeding term infants for increasing duration of breastfeeding (authors, Jaafar SH, Jahanfar S, Angolkar M Ho JJ).
Cochrane Database of Syst Rev, 7 (2011), pp. CD007202
[15]
E.R. Giugliani, L.M. Nunes, R.M. Issler, L.C. Santo, L.D. Oliveira.
Involvement of maternal grandmother and teenage mother in intervention to reduce pacifier use: a randomized clinical trial.
J Pediatr (Rio J), 95 (2019), pp. 166-172
[16]
L.M. Nunes, E.R. Giugliani, L.C. do Espírito Santo, L.D. de Oliveira.
Reduction of unnecessary intake of water and herbal teas on breast‐fed infants: a randomized clinical trial with adolescent mothers and grandmothers.
J Adolesc Health, 49 (2011), pp. 258-264
[17]
O.C. Bica, E.R. Giugliani.
Influence of counseling sessions on the prevalence of breastfeeding in the first year of life: a randomized clinical trial with adolescent mothers and grandmothers.
Birth, 41 (2014), pp. 39-45
[18]
L.D. Oliveira, E.R. Giugliani, L.C. do Espírito Santo, L.M. Nunes.
Counselling sessions increased duration of exclusive breastfeeding: a randomized clinical trial with adolescent mothers and grandmothers.
[19]
G. Buccini, R. Pérez-Escamilla, S.I. Venancio.
Pacifier use and exclusive breastfeeding in Brazil.
J Hum Lact, 32 (2016), pp. NP52-NP60
[20]
G. Buccini, R. Pérez-Escamilla, M.H. D’Aquino Benicio, E.R. Giugliani, S.I. Venancio.
Exclusive breastfeeding changes in Brazil attributable to pacifier use.
PLOS ONE, 13 (2018), pp. e0208261
[21]
C.S. Boccolini, P.d.M. Boccolini, F.R. Monteiro, S.I. Venâncio, E.R. Giugliani.
Breastfeeding indicators trends in Brazil for three decades.
Rev Saude Publica, 51 (2017), pp. 108
[22]
G. Buccini.
Evolução do uso de chupeta e sua influência no aleitamento materno exclusivo no Brasil 1999–2008.
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, (2017),
[23]
A.I. Eidelman, R.J. Schanler.
Breastfeeding and the use of human milk.
Pediatrics, 129 (2012), pp. e827-e841
[24]
S. Sexton, R. Natale.
Risks and benefits of pacifiers.
Am Fam Physician, 79 (2009), pp. 681-685
[25]
M. Ponti.
Recommendations for the use of pacifiers.
Paediatr Child Health, 8 (2003), pp. 515-519
[26]
World Health Organization (WHO).
UNICEF. Protecting, promoting and supporting breastfeeding in facilities providing maternity and newborn services: the revised Baby‐Friendly Hospital Initiative implementation guidance.
WHO, (2018),
[27]
R.Y. Moon.
Task Force on Sudden Infant Death Syndrome. SIDS and other sleep‐related infant deaths: evidence base for 2016 updated recommendations for a safe infant sleeping environment.
Pediatrics, 138 (2016), pp. e20162940
[28]
K. Psaila, J.P. Foster, N. Pulbrook, H.E. Jeffery.
Infant pacifiers for reduction in risk of sudden infant death syndrome.
Cochrane Database Syst Rev, 4 (2017), pp. CD011147
[29]
F.R. Hauck, J.M. Thompson, K.O. Tanabe, R.Y. Moon, M.M. Vennemann.
Breastfeeding and reduced risk of sudden infant death syndrome: a meta‐analysis.
Pediatrics, 128 (2011), pp. 103-110
[30]
G. Buccini, S.I. Venancio.
Uso de chupeta em crianças amamentadas: prós e contras.
Sociedade Brasileira de Pediatria, (2017),
[31]
A.G. Lopes, A.C. Pereira, E.P.d. Fonseca, F.L. Mialhe.
Irregularidades sanitárias na promoção comercial em rótulos de produtos para lactentes e os riscos para a saúde.
Saúde em Debate, 41 (2017), pp. 539-552
[32]
S.C. Sertório, I.A. Silva.
As faces simbólica e utilitária da chupeta na visão de mães.
Rev Saude Publica, 39 (2005), pp. 156-162

Como citar este artigo: Buccini G, Pérez‐Escamilla R, Venancio SI. Routine pacifier use in infants: pros and cons. J Pediatr (Rio J). 2019. https://doi.org/10.1016/j.jpedp.2018.05.009, 10.1016/j.jped.2019.06.001.

Copyright © 2019. Sociedade Brasileira de Pediatria
Idiomas
Jornal de Pediatria

Receba a nossa Newsletter

Opções de artigo
Ferramentas
en pt
Taxa de publicaçao Publication fee
Os artigos submetidos a partir de 1º de setembro de 2018, que forem aceitos para publicação no Jornal de Pediatria, estarão sujeitos a uma taxa para que tenham sua publicação garantida. O artigo aceito somente será publicado após a comprovação do pagamento da taxa de publicação. Ao submeterem o manuscrito a este jornal, os autores concordam com esses termos. A submissão dos manuscritos continua gratuita. Para mais informações, contate assessoria@jped.com.br. Articles submitted as of September 1, 2018, which are accepted for publication in the Jornal de Pediatria, will be subject to a fee to have their publication guaranteed. The accepted article will only be published after proof of the publication fee payment. By submitting the manuscript to this journal, the authors agree to these terms. Manuscript submission remains free of charge. For more information, contact assessoria@jped.com.br.
Cookies policy Política de cookies
To improve our services and products, we use "cookies" (own or third parties authorized) to show advertising related to client preferences through the analyses of navigation customer behavior. Continuing navigation will be considered as acceptance of this use. You can change the settings or obtain more information by clicking here. Utilizamos cookies próprios e de terceiros para melhorar nossos serviços e mostrar publicidade relacionada às suas preferências, analisando seus hábitos de navegação. Se continuar a navegar, consideramos que aceita o seu uso. Você pode alterar a configuração ou obter mais informações aqui.